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INSIGNIFICANTE AMOR

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INSIGNIFICANTE AMOR

 O homem imediatamente sorriu ao vê-la, a sensação de alegria invadiu o seu coração, afinal mais uma vez a visita ilustre que esperava ansioso acabara de chegar em seu escritório. Naquele mesmo horário, como em todos os dias anteriores, ela entrava pelo pequeno vão da janela semi aberta, voando com certa dificuldade, dava voltas em círculos completo pela pequena sala e aos poucos, cautelosamente a uma altura segura, a cada nova volta diminuía o círculo de voo para certificar-se de que não haveria nenhum perigo em aproximar-se do homem sentado em sua mesa, nitidamente exaurida pela esforço, continuava a rodear a cabeça do homem, dando a impressão que esperava ser acolhida. O homem gentilmente levanta o braço, cerra o punho e estende o dedo indicador na altura dos olhos, aquele gesto conhecido significava o sinal para mais um pouso seguro. A minúscula abelha negra entende perfeitamente o gesto e, em batidas de asas perfeitamente sincronizadas, pousa suavemente na ponta de seu dedo. Delicadamente ele posiciona o dedo até tocar a superfície da mesa, sem nenhuma cerimônia, acostumada a esse ritual, pula para o tampo de granito e corre para degustar a gota de suco de laranja propositalmente colocada. Um pensamento vem a sua cabeça: Se aquele minúsculo inseto tivesse memória saberia que ontem havia experimentado uma gota de água mineral com gás e que ante ontem foi uma de refrigerante diet. Ela sorveu com destreza todo o líquido até restar apenas a marca úmida na pedra de granito. Diferente de outras vezes, ela apresentava um estranho comportamento de insatisfação, rodeava o local onde estava a gota do suco e novamente batia as asinhas com muita força, como se estive preparando o voo e depois ficava inerte. O homem observando atentamente o movimento do inseto sentiu que ela poderia estar enviando sinais, pegou o canudinho, enfiou em seu copo de suco de laranja, tapou com o polegar a outra extremidade do canudo e cauteloso depositou outra gota na mesa, a pequena abelha negra veio rapidamente e pôs-se a absorvê-la. Ao final de sorver todo o liquido, como um ritual que antecede o voo, aparentemente satisfeita, limpou as patinhas dianteiras, traseiras e antenas, testou as asinhas e levantou voo, em círculos menores foi pousar na parte superior do óculo, de frente para o homem, face a face, olhos nos olhos, estranhamente parecido com um gesto de gratidão humano e partiu pela mesma fresta da janela que entrou.
O homem levantou-se rapidamente, abriu a janela no alto do edifício e colocou a cabeça para fora, com a intensão de ainda avistá-la e talvez desejar, ao pequeno inseto, uma boa jornada na imensidão do céu azul. Sem sucesso, ficou pensativo olhando o horizonte. Mais uma vez a danadinha simplesmente desapareceu e deixou muitas dúvida, teria um cérebro naquele minúsculo corpo, teria inteligência, teria sentimentos? Uma certeza aquele homem tinha, a pequena amiga lembrava-se do lugar e dele pois sempre retornava e no mesmo horário.

* * * * *
Final de mês, a pressão da chefia para os resultados era acirrada, perdido entre os afazeres profissionais, o ambiente estava silencioso, a temperatura confortavelmente climatizada, alguma coisa chamou-lhe a atenção, havia passado das quinze horas e sua abelhinha não havia aparecido. Olhou imediatamente para a janela e o vão estava fechado. Pensou: O que!!! Quem havia fechado? O conforto o fez esquecer de sua preciosa amiga, imediatamente abriu a janela, foi até a copa apanhou o suco preparado especialmente para o inseto e esperou. O ambiente foi invadido pelo mormaço escaldante do calor de 35 graus, mas ele bravamente aguentou firme e esperou pacientemente… Ao anoitecer a janela permanecia aberta, a preocupação tomou conta de seus pensamentos,
A – hipótese menos provável: a abelha não veio,
B – hipótese mais provável: Ela veio encontrou a janela fechada e foi embora,
C – hipótese terrível: Foi apanhada por um pássaro faminto.
Aquele homem recusa-se em acreditar nesta última hipótese, pois acreditava seriamente que Deus, em sua divina bondade, jamais permitiria que fizessem mal aquela insignificante e inofensiva abelhinha negra..

      Os dias passaram e o homem em sua pequena sala, absorto em seu mundo particular, sempre demonstrando ansiedade acima do comum, trabalhava em um ambiente muito quente, com a janela escancarada, a mesa foi alterada em seu posicionamento para que pudesse visualizar a janela, ficando sentado perpendicular a entrada. As suas estranhas atitudes despertaram a curiosidade de seus colegas que nos encontros do cafezinho e troca de mensagens eletrônicas passou a ser o destaque dos comentários. O seu comportamento o levou a dar explicações a chefia, depois disso foi proibido a abertura das janelas, as divisórias de todo o escritório foram substituídas por vidros translúcidos, tudo na clara intenção da chefia ter maior visibilidade dos colaboradores. Aos poucos o homem e suas atitudes afastaram-no do convívio dos companheiros e isolou-o em seu espaço, passou a ser tratado com indiferença pela maioria dos colegas, que o responsabilizavam pelas mudanças impostas, além da convicção de alguns que até duvidavam de sua sanidade mental. Entretanto nenhum desses problemas eram grandes o suficiente para abalar a sua esperança de rever o inseto desaparecido.

        Faltavam alguns dias para o início das comemorações de final de ano, as luzes dos arranjos da árvore natalina refletiam nas paredes de vidro, estrategicamente montada no corredor central do escritório. O homem absorto em suas tarefas, sentado em sua mesa, olhou despretensiosamente para a janela e avistou, do lado de fora, um pontinho negro semelhante ao de sua abelhinha, imediatamente levantou-se, deu a volta na mesa e abriu a janela, esperou o minúsculo inseto entrar e fechou o vidro. A felicidade foi enorme e incontrolável, ele fazia gestos com o braço, corria de um lado a outro da sala, abaixando e levantando a cabeça acompanhando o voo da abelhinha negra, para os companheiros que o assistiam de longe, a cena era um misto de espanto e indignação. O homem, sem dar importância as reações alheias, foi apressadamente até a copa apanhou no refrigerador os copos preparados com suco de laranja, agua de coco e refrigerante e colocou tudo sobre a sua mesa, cerrou o punho estendeu o dedo indicador, acima da cabeça e a abelhinha negra pousou em segurança. Cuidadosamente ele levou o dedo até tocar a superfície da mesa, a abelha salta, o homem desajeitado pela pressa deposita uma gota do suco de laranja, a abelhinha imediatamente passa a sorvê-la, depois alguns centímetros mais afastado outra gota de refrigerante diet e, por fim, mais uma de água de coco. Inacreditavelmente ela sorve todas as três gotas e inicia o ritual da limpeza. Com os cotovelos sobre a mesa e as mãos abertas abaixo do queixo suportando a cabeça, o homem observa admirado o pequeno inseto. Neste momento a porta de sua sala é aberta abruptamente, entra um senhor alto, sisudo e aparentemente zangado, fecha a porta e senta-se. O homem instintivamente procura a abelhinha sobre a mesa e percebe que ela levantou voo quando a corrente de vento proveniente da porta a atingiu, ele com a cabeça fixa no senhor a sua frente que falava gesticulando com tom áspero, ficou a procura-la apenas com o movimento dos olhos pela sala. A abelhinha apareceu dando voos, com aparente dificuldade, sobre a careca do senhor que continuava a falar gesticulando e pousou em seu ombro, sem ser percebida. O homem prestava a atenção e balançava positivamente a cabeça sem tirar os olhos do pequeno inseto. O senhor pegou uma das pastas de papel, com uma das mãos, em gesto de mostrar, ergueu e a balançou no ar proferindo palavras, a abelha assustada levantou voo e foi pousar na mesa, de frente ao senhor, que num gesto de estrema rapidez bateu a pasta sobre o inseto, esmagando-o sobre a mesa de granito.

        O homem irritado, fora de si, levantou de sobressalto e gritou alto, tão alto que o silencio do escritório foi quebrado. O senhor assustado sem saber o que ocorria, recuou a cadeira espantado. Naquele momento de fúria o homem, que mais parecia um louco, apanhou a sua cadeira e lançou em direção ao senhor que antecipadamente percebeu a intenção e correu para a porta, a cadeira atingiu a divisória de vidro, houve um baque seco e estilhaçou-se em pequenos cacos, derrubando a árvore de natal, ao cair ela espalhou suas luzes pisca-pisca e arranjos pelo chão. Os funcionários ficaram apreensivos, de pé e em pânico.

       O homem voltou sua atenção a pasta sobre a mesa e a ergueu delicadamente, constatando que era tarde para a abelhinha negra ou o que restara dela, puxou uma cadeira, sentou-se e desesperado, em prantos, com o rosto encostado na mesa e os braços cruzados sobre a cabeça soluçava copiosamente.
Os enfermeiros colocaram-no em uma humilhante camisa-de-força e o levaram. Em sua loucura, amarrado em uma cela suja onde tinha apenas a companhia de uma pequena aranha negra, com os olhos esbugalhados e início de rouquidão, aos berros afirmava repetidamente:
– Eu deveria ter contado ao mundo, revelado meu segredo, ela ainda estaria viva. VIVAAAA!!
As palavras de profundo sofrimento do homem despertaram uma repentina comoção coletiva.
VIVAAAA! Respondia um sincronizado coro de vozes, palmas e assobios que ecoavam pelos corredores. A alegria tomou conta do manicômio, os detentos voltavam a ficar em completo silêncio aguardando ouvirem novamente a palavra “VIVA” para continuarem o jogo de responder “VIVAAA!!!” mais vigorosamente e cada vez mais alto.

* * * * *

        Alguns dias após o acontecido, o homem louco estava completamente esquecido no local de trabalho, a sua sala foi ocupada pelo substituto, o escritório impecavelmente reformado e em pleno funcionamento, o corredor a bela árvore iluminada refletia o espirito natalino, mas nem tudo era perfeito, haviam relatos de funcionários que afirmavam que uma espécie de pequenas abelhas negras constantemente invadiam seu espaço de trabalho e traziam consigo um marcante aroma cítrico e demonstravam um comportamento social de aproximação, estranhamente pousavam nos ombros, cabeça, mesa das pessoas e passivamente aguardavam serem espantadas ou abatidas. Este problema foi eficazmente solucionado por uma empresa especializada em conter infestações de inseto, que encontrou o foco do lado externo do prédio e exterminou uma colônia inteira de abelhas “jataí”, justamente, sobre a janela da sala daquele homem doido.

Não é preciso ser louco para sentir a grandeza de um insignificante amor.
“Quantas coisas insignificantes serão preciso cruzar a vida para se enxergar o tamanho de sua importância?”

Fim

JULIO CARLOS ALVES – 18/08/2016